UMA HISTÓRIA NO SEU TEMPO

Uma história no seu tempo - vários autores
Antologia Scortecci de Poesias, Contos e Crônicas (402 páginas) BR 2007



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BORRALHO (Marco Mendes)

Quando ainda estudante, andando pelas terras da fome, da sede, do descaso governamental e do curral político, tive a oportunidade única de sentir isso:

De que me importa essa solidão,
se lá fora somente há solidões.
De que me importa essa fome,
se com sono estou.
De que me importa essa colheita,
se seu fruto não tem terra.
De que me importa essa noite,
se lá adiante há um crime.
De que me importa essa angústia,
se com juras me envolvo.
De que me importa essa dona,
se seu coroné não me é...
De que me importa...

Quando o marraco finca a terra,
e o suor escorre feito sangue,
Chega o começo nascente,
de um solo sofrido,
dentro de um cabra do vivo.

Quando o marraco se arranca da terra,
o corajudo até treme,
Como se estivesse com medo da própria terra,
no escaldo dessa solação.

Na sacola um maio de cachaça,
no embornal farinha.
Engana bucho até quando?

A cada amanhecer a fé em Deus,
e a reza bruta do trabaio.
Viver, e viver, e mais viver sem nada pedir.

Remediar o sofrimento,
comendo a vida,
da mesma forma que o sol,
come essa terra de farta d’água.
Plantar a terra a cada dia
e nunca saber da morte.
Desmentir a cada momento
essa mentira do sertão
de deixar a terra.

Coser o linho fugaz
de esperança eterna.
Chorar na viola porreta,
descanso e mesa
no entardecer desse meu sertão.

De que me importa agora
Se de loucura vive esse povo.
Quem se importa?
E também, de que me importa.

Donde vem essa brisa?
Do mar
Não conheço.
Do sul
É desejo.
É ilusão de amargura.
É inveja de felicidade.

Findo aqui meu sonho
Sem chorar nos olhos da mulher amada.
Com esperança na fresta de luar
Semente, somente, mente não semente.

Vem de algum lugar
Surja do nada.
Não deixe meu povo pitar macaia.

Não quero acalento
Nem mogangas políticas.
Mais que animais, são gente
Com rugas e calos de te.